A ecologia para a maioria dos brasileiros é mais modismo do que conscientização

A ECOLOGIA PARA A MAIORIA DOS BRASILEIROS É MAIS MODISMO DO QUE CONSCIENTIZAÇÃO

Início de ano, época de pesquisar preço de material escolar para as crianças. Fui olhar o custo dos cadernos.

Tem uma marca chamada Kraft que oferece tanto cadernos normais quanto reciclados. Pensei cá com os meus botões: "Pôxa vida. Melhor caderno com papéis reciclados. As crianças estudam e a gente ainda ajuda o meio ambiente desmatando menos as florestas".

Vamos lá pesquisar os preços: 

- Caderno Kraft 96 folhas, formato A4, 28cm X 21cm: R$19,50;

- Caderno Kraft 90 folhas (reciclado), formato A4, 28cm X 21cm: R$88,90.

 

Ao olhar a propaganda do caderno reciclado, ainda encontrei um texto muito interessante:

 
Este Caderno Kraft foi desenvolvido pelos próprios brasileiros para você usar no trabalho, na faculdade, na escola, curso técnico ou em qualquer lugar que você deseja.

Este é o momento de você ser uma referência em seu grupo de amigos e um diferencial positivo no seu meio social. E com este caderno que chama atenção por ser feito de papel Kraft e ser 'queridinho' pelo meio ambiente, essa tarefa será fácil!

Você sabia que o papel Kraft é feito com mistura de fibras de celulose e laminado com alumínio além de ser recoberto com parafina? Isso quer dizer que esse caderno além de ser feito exclusivamente pra você, também te parabeniza porque o seu processo de criação gastou a metade da água e da energia necessária para produzir papel 'novo' e ainda se diminuiu a poluição do ar em até 74% e a da água em até 35%.

É pelo visto já passou da hora de você fazer suas anotações de modo descolado e ecologicamente correto. Compre esse caderno para deixar o seu cotidiano mais prático e menos poluído! Aproveite!" 
 
Eu peguei o exemplo do caderno, mas poderíamos estar falando de um lápis, uma mochila, uma roupa, ou seja o que for. O que importa é a essência do que quero discutir.
A propaganda do produto foca no "status" de se ter um caderno reciclado. A "importância" do produto na diminuição do impacto ambiental fica em segundo plano. Por causa disso, o objeto se torna bem mais caro do que deveria ser. 
É "descolado" ter um produto reciclado e ecológicamente correto, mas não "necessário". Quando o foco das empresas e do governo estiver voltado em convencer as pessoas da "necessidade" de se consumir tais produtos, a demanda vai aumentar e o preço vai diminuir.
 
Vamos conversar seriamente: Quando é que um pai de família vai pagar 4 vezes mais por um caderno somente por ser ecológicamente correto? Se juntarmos matemática, português, biologia, geografia, física, química e o restante da grade curricular, só de caderno o "caboclo" deixa mais de mil "contos" na papelaria.
Preservar o verde começa pelas folhas de nossa carteira. Para o produto reciclado se transformar em um bem substituto, ele tem que ter um preço de mercado.
 
Para se fabricar um produto qualquer, a indústria paga pela matéria prima.
No produto reciclado, o consumidor se desfaz do seu "lixo" de forma organizada para quem for recolher: vidro, papel, plástico e material orgânico bem separados. A matéria prima chega de graça pra indústria, que, por sua vez, devolve um produto com um valor agregado maior para as pessoas que vão consumi-lo.
 
Entendemos por valor agregado aquilo que adicionamos de benefício a um determinado produto, de forma com que ele fique mais valioso para quem o vende. Se quatro laranjas custam R$0,50 eu posso produzir o suco e vendê-lo por R$3,00. Mas, no caso da reciclagem, o consumidor "doa" a matéria" prima e ainda é onerado na compra do bem adquirido, quando, na verdade, ele deveria obter desconto.
 
Dinheiro com reciclagem o brasileiro pobre só consegue mesmo vendendo latinhas de cerveja no quilo (acumuladas depois de uns 6 meses de "cachaça" tomada em casa) ou arrumando fiação de cobre roubada da estrutura elétrica do bairro. 
 
Voltando a falar da coleta seletiva. É muito bonito ver a população separando o lixo, cada qual em um cesto de cor diferente. Mas o fato é que mais da metade das cidades do Brasil ainda utilizam os antigos "lixões" para despejarem os seus resíduos. Os aterros sanitários ainda estão sendo ativados aos poucos, à princípio em cidades de maior porte.
Há dez anos atrás, trabalhei em uma empresa na cidade de Curvelo, onde era obrigatório que todos tivessem uma "consciência ecológica" e que fizessem o descarte dos resíduos de forma padronizada, ou seja; o papel tinha que ser colocado no cesto azul, o plástico no cesto vermelho, o vidro no cesto verde, e por aí vai
Acontece que a empresa contratada para recolher o lixo do local, realizava as coletas aos sábados, de modo que ninguém visse que ela misturava todos os resíduos novamente em cima de um caminhão. Quando descobri o absurdo, tentei chamar a atenção do motorista. O mesmo me disse que no "lixão" da cidade nada disso tinha diferença. "Calei a minha boca".
 
Tudo isso nos leva a crer que ecologia para a maioria dos brasileiros é mais modismo do que conscientização. A grande parte da população ainda não percebeu que cuidar do meio em que vivemos é mais que uma obrigação, é uma necessidade.
 
Enquanto nós aqui no Brasil continuamos na "modinha", do outro lado do atlântico, na europa, reciclagem gera renda e emprego para a população. As crianças aprendem desde cedo a importância da proteção ao meio ambiente. Empresas são atraídas pelo governo através de subsidios, com o intuito de trazer para as cidades investimento em tecnologias de reaproveitamento e reciclagem dos resíduos.
 
O que hoje é considerado um problema ambiental, amanhã pode ser transformado em solução financeira para muitos. Basta mudar a forma como encaramos as coisas. Se estes processos funcionam bem na Europa, porque não haveria de funcionar bem aqui também?
 
A natureza e a economia do país iriam agradecer.
 
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