Como dados imprecisos sobre esgoto viraram munição política na internet

Como dados imprecisos sobre esgoto viraram munição política na internet

Informações de fontes secundárias, erros e enfoques questionáveis acabaram virando munição para alimentar o embate político nas redes sociais. Nesta semana, o projeto "Conversa com brasileiros", mantido pelo PSDB, usou dados sobre a quantidade de domicílios ligados à rede de esgoto no Brasil para criticar o governo do PT.

O site divulgou segunda-feira, nas redes sociais, um vídeo dizendo que "o número de lares sem rede de esgoto aumentou nos governos Lula e Dilma" com a informação de que, entre 2005 e 2015, o número de domicílios sem esse serviço subiu de 25,6 milhões para 28,5 milhões. Até a publicação desta reportagem, o vídeo já tinha sido visto no Facebook mais de 13 mil vezes, mas será que esses dados estão corretos? 

O Blog percorreu o caminho inverso da informação e constatou que ela tem erros e dados questionáveis. O "Conversa com brasileiros" coletou as informações a partir de matérias publicadas em sites de notícias na semana passada que, por sua vez, se basearam no relatório de uma consultoria. As informações, entretanto, são diferentes das que constam no relatório original que, por sua vez, não usou uma fonte primária e oficial para a coleta desses dados.

O relatório original elaborado pela consultoria GO Associados, intitulado "Diagnósticos e perspectivas para os investimentos em saneamento no Brasil", de onde foram tirados os dados, informa que, ao contrário do que foi repercutido na internet, o crescimento de 25,6 milhões para 28,5 milhões de domicílios sem rede de esgoto aconteceu entre os anos de 2001 e 2015, e não entre 2005 e 2015. 

A fonte usada pelo relatório para a coleta desses dados, entretanto, não cita um órgão primário e oficial como origem da informação. O relatório informa que tirou esse números da dados divulgados em um reportegem. Apesar de ser comum o uso veículos de imprensa como fonte para pesquisas e levantamentos, o relatório não cita, na seção de referências, de onde exatamente veio esse número (como o link da reportagem ou a edição em que foi publicada, por exemplo). 

O QUE DIZEM OS DADOS OFICIAIS

Os números são diferentes dos divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), elaborada pelo IBGE, que traz o número de lares com e sem acesso à rede de esgoto. Entretanto, houve uma mudança na metodologia da PNAD a partir de 2009, o que interfere na comparação histórica desses números.  

Até 2008, a PNAD não contava para o número de domicílios com acesso à rede de esgoto os lares que tinham fossa séptica. A partir de 2009,  o IBGE desmembrou esses dados em domicílios com "fossa séptica ligada à rede coletora" e "fossa séptica não ligada à rede coletora", somando o primeiro grupo no conjunto dos que tinham acesso à rede de esgoto, o que incrementou essa conta e diminuiu o número de lares sem acesso ao serviço. 

Considerando a nova metodologia do IBGE, o número de lares sem esgoto caiu tanto entre 2001 e 2015 quanto entre 2005 e 2015. Se for considerada a antiga metodologia o número subiu, mas muito menos que o divulgado na internet e um pouco menos que o divulgado pelo relatório.  

Para o IBGE, são considerados como lares que não têm acesso à rede os que não têm nada ou que têm fossa séptica não ligada à rede coletora, fossa rudimentar ou outro tipo. Até 2008, entravam também nesse número os que tinham fossa séptica ligada à rede coletora. 

Por fim, os dados divulgados na internet levam em conta apenas o número absoluto de domicílios sem rede de esgoto. Se for considerada a proporção, segundo números da PNAD, diminuiu o percentual de domicílios sem acesso à rede de esgoto em ambos os períodos no país, independente da metodologia usada. Em 2001, eram 54,5%. Em 2005 esse número caiu para 51,8% e em 2015 para 40,9% na antiga metodologia e para 34,6% na nova metodologia.

FONTE: OGLOBO