Grandes barragens x crise hídrica: é preciso reduzir a perda por evaporação

Grandes barragens x crise hídrica: é preciso reduzir a perda por evaporação

Como a evaporação pode comprometer os níveis dos grandes reservatórios e as tecnologias disponíveis para reduzir esse volume perdido.

Nosso país atravessa uma crise hídrica sem precedentes. Apesar de algumas regiões terem recuperado parcialmente os volumes de seus reservatórios, caso de São Paulo, outras continuam sofrendo os efeitos da estiagem que já dura quase uma década.

Brasília, no Distrito Federal iniciou um severo racionamento recentemente. No Nordeste brasileiro, importantes cidades sofrem restrição no fornecimento de água tratada continuamente. No Norte e Nordeste de Minas Gerais, cidades grandes e médias decretaram estado de emergência ainda no período chuvoso, outras dezenas já estão em racionamento. A agricultura e pecuária está prejudicada devido a irregularidade de chuvas e indisponibilidade de água nos mananciais em metade do território brasileiro.

A solução das barragens de acumulação de água é a mais indicada para regularizar o abastecimento nas médias e grandes cidades, permitindo ainda perenizar cursos d’água o que favorece os produtores rurais e comunidades menores na região. Outra vantagem são os projetos de canais de irrigação que trazem desenvolvimento e trabalho.

No entanto, a redução do volume das chuvas acaba comprometendo até mesmo os níveis desses barramentos, gerando a necessidade de captar seu volume morto ou, até mesmo, causando o colapso no abastecimento como vimos na região metropolitana de São Paulo.

Para evitar essa situação, é preciso atuar numa variável que nem sempre é lembrada pelos gestores das barragens: a evaporação dos lagos. João Suassuna, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, constata que cerca de 40% do volume acumulado em pequenos e médios açudes do semi árido é perdido pela evaporação. Nos grandes barramentos por acumulação, há estudos que estimam em 15% a perda média de água por esse fenômeno. Com o aumento da temperatura média no Brasil, essa evaporação é ainda mais intensa e preocupante.

No atual período de escassez, trata-se de um volume fundamental que precisa ser preservado e há tecnologias disponíveis que permitem isso. Os gestores das médias e grandes barragens precisam, imediatamente, investir nesses recursos que permitem reduzir a evaporação e, em alguns casos, ainda gerar energia limpa.

Dentre as alternativas, utilizar técnicas para sombreamento ou cobertura com placas dos espelhos d’água exige mais investimentos para os médios e grandes barramentos cuja área a ser coberta é muito grande. No entanto, há ações de sucesso com esses dispositivos mundo afora. No caso de Los Angeles, o imenso reservatório Los Angeles Reservoir foi coberto com 96 milhões de bolas de plástico flutuantes. A previsão é economizar 1,1 bilhão de litros de água por ano reduzindo a evaporação além de evitar a formação de algas.

Milhões de bolas de plástico cobrindo o reservatório Los Angeles Reservoir

Outra alternativa interessante para médias e grandes barragens, já usada em vários países do mundo, é a aplicação de filmes superficiais monomoleculares por meio de surfactantes adicionados na água. São produtos com baixa toxicidade e que não provocam danos ao meio ambiente, criando uma micro película nos espelhos d’água que chega a reduzir as perdas por evaporação em até 50%. Áustrália e Índia utilizam esses produtos há décadas e a UNESCO reconhece e indica os filmes superficiais para a melhor gestão hídrica das barragens.

Talvez a solução mais viável seja a instalação de placas de energia solar nos espelhos d’água por meio de flutuadores, encobrindo a área de incidência solar e ainda gerando energia limpa que poderá ser comercializada pelos gestores dos barramentos. Na barragem de Yamajura, em Chiba no Japão, foram instalados painéis solares azuis em uma parte do reservatório. O projeto gerará energia suficiente para abastecer 5 mil residências, além de reduzir em mais de 70% as perdas por evaporação.

Placas solares flutuantes em lago no Japão

A francesa Ciel & Terre Internacional produz placas flutuantes para geração de energia solar que prometem reduzir em 70% as perdas por evaporação nos locais onde forem instalados. Já existe uma joint venture no Brasil para vender essa solução para os gestores das médias e grandes barragens.

No Brasil, a Eletronorte e a Chesf já implantaram placas solares flutuantes nos reservatórios de Balbina (Amazonas) e Sobradinho (Bahia) cujo projeto piloto permitirá a geração de 5 MW em área coberta equivalente a cinco campos de futebol. Uma grande vantagem é que nesses lagos já existe a estrutura para transformação e transmissão da energia gerada, agregando mais valor ao investimento.

Projeto para geração de energia solar nos reservatórios de Balbina e Sobradinho

Trata-se de uma alternativa que precisa ser disseminada para os outros grandes reservatórios do país, especialmente nesse momento em que milhões de brasileiros sofrem restrição de disponibilidade de água tratada em suas residências.

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