Irrigar plantações com esgoto bruto

Irrigar plantações com esgoto bruto

O saneamento no Brasil enfrenta um grande desafio: como reduzir o déficit de oferta dos serviços à população com poucos recursos disponíveis para investimentos. Para superar esse problema, profissionais do setor e pesquisadores buscam alternativas viáveis técnica e economicamente que permitam alcançar, mais rapidamente, a universalização do saneamento.

Os sistemas de tratamento de esgotos domésticos convencionais, com reatores, filtros e decantadores ou lagoas apresentam um alto custo de investimento para implantaçaõ, além de despesas consideráveis para sua operação e manutenção. Por isso, nas cidades brasileiras que contam com esses sistemas, as tarifas cobradas precisam ser mais altas e geram reclamação dos consumidores.

Outro ponto que merece atenção é a disposição final dos efluentes gerados por esses tratamentos convencionais. Eles são lançados em corpos receptores que, em vários casos, não possuem vazão suficiente para suportar a carga orgânica que ainda apresentam e não conseguem completar o tratamento por meio da autodepuração. Isso gera impactos negativos em rios e córregos com baixa vazão e, novamente, insatisfação da população.

Uma alternativa interessante e já usada em várias regiões do país é a disposição em solo com escoamento do efluente tratado. Após o tratamento convencional por reatores e filtros, há o lançamento do efluente em campos de disposição de solo onde os mesmos serão clarificados e desinfetados pela ação da incidência solar e das plantas. Ao final, o efluente é coletado e lançado no corpo receptor.

Trata-se de um tratamento com excelentes resultados, mas que continua exigindo grandes investimentos na implantação de unidades do sistema convencional, em áreas para disposição em solo e na operação dessas unidades. Novamente, a escassez de recursos para esses investimentos continua restringindo essa alternativa.

Há, no entanto, estudos e experimentos em que o esgoto bruto é utilizado para irrigação direta como método de tratamento. Nesse caso, os investimentos necessários são consideravelmente menores, resumindo-se a aquisição e preparação de grandes áreas para irrigação, além da operação e manejo das mesmas.

Caso essa alternativa prospere no Brasil, poderá significar um grande avanço para ampliação da oferta de sistemas com tratamento de esgotos nas cidades pequenas e médias. É preciso que técnicos e gestores das empresas de saneamento e dos organismos e instituições gerenciadoras e fiscalizadoras do meio ambiente avaliem e regulamentem essas inovações tecnológicas já testadas com sucesso em várias cidades mundo afora.

O sistema é simples e utiliza o solo (filtração), os micro organismos presentes na superfície (redução dos patogênicos) e as plantas (aeração do solo e substrato para os micro organismos) como etapas do tratamento do esgoto bruto lançado.

Essa alternativa exige grandes áreas, terrenos com topografia favorável, identificação adequada da cultura (Brachiaria humidicola, p.e.) a ser utilizada e técnica de irrigação (percolação, inundação, escoamento) bem como a localização do empreendimento que precisa estar a uma distância segura de mananciais e aglomerados urbanos, entre outros aspectos.

Lançar esgoto sem tratamento para irrigar pastos e plantações pode parecer absurdo, mas é uma tecnologia que foi adotada antes mesmo do início da era cristã, em grandes cidades da Grécia antiga como Atenas, por exemplo. Atualmente, países desenvolvidos como Austrália e EUA usam essas técnicas e no Brasil há muitas pesquisas e experimentos similares (Apodi-RN, Salisópolis-SP, Capão da Canoa-RS, Janaúba-MG, Populina-SP, FEAGRI-SP, Lins e Piracicaba-SP)  que atestam seus bons resultados.

Se continuarmos fazendo do mesmo jeito e desenvolvendo projetos convencionais para tratamento de esgotos domésticos precisaremos nos conformar com o longo tempo até que o Brasil alcance patamares desenvolvidos no saneamento. É hora de inovar e encontrar saídas inteligentes e eficientes para melhorar a vida das pessoas e proteger o meio ambiente.

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