O carnaval que passa e a sujeira que fica

O carnaval que passa e a sujeira que fica

O carnaval passou, a festa foi linda e comemorada com alegria no Brasil inteiro. Porém, um evento deste porte é acompanhado de um consumo por parte das pessoas além do normal. E este consumo gera uma quantidade exagerada de resíduos que tem que ser recolhidos e tratados.

Em Belo Horizonte, tivemos neste carnaval o cadastramento de mais de 300 blocos de rua, que fizeram a festa em todas as regiões da cidade. Lixeiras foram espalhadas por todos os cantos, porém, parte da população não se emenda, e insiste no ato incorreto de jogar o lixo no chão.

De todos os resíduos gerados, talvez o menos problemático seja as latas vazias de cerveja, suco e refrigerante. Isto porque o Brasileiro já se acostumou a lidar com o alumínio de forma eficaz para o meio ambiente e para o bolso. O preço médio pago em um Ferro Velho por um quilo de alumínio é de R$3.20. Assim sendo, é difícil vermos uma lata vazia jogada no chão por muito tempo. Para falar a verdade, hoje existem “fiscais” de lixeiras que esperam a latinha ser dispensada para recolhê-la logo em seguida. Mas os papéis, plásticos, vidros, restos de comida e outros, não recebem este mesmo tratamento dado ao alumínio.

Outro grande problema destes blocos de rua é a falta de estrutura para realizar os eventos no que tange à quantidade de sanitários.  Na última segunda-feira fui a um bloco infantil com mais ou menos 1000 pessoas prestigiando o evento, e no local havia apenas dois banheiros masculinos e um feminino. Por esta razão não durei muito tempo por lá, mas me pergunto o que fizeram as pessoas que ficaram quando se sentiram “apertadas”.

Sem a estrutura adequada, muitos homens sem noção acabam por urinar nas ruas. Não vou nem considerar a questão da falta da educação e do crime de atentado ao pudor, mas imaginem a quantidade de água que se gasta para limpar estes lugares no outro dia? Segundo dados da Limpurb (empresa de limpeza urbana de Salvador), no carnaval de 2015, só para serviço de higienização das ruas da cidade Soteropolitana, foram utilizados mais de 250 mil litros de água e consumidos cerca de 520 mil litros de sabão por dia. Agora, multiplique estes 250 mil litros de água por sete dias de festança, e depois lembre-se de que o Brasil possui 5.570 municípios, todos envolvidos neste evento popular.

Mas no Brasil a água é abundante e quase não temos problemas relacionados com crise hídrica, não é mesmo?!

A questão da água gasta no carnaval, serve para o lixo gerado também. Se aquele bloquinho de rua que participei na Pampulha, gerou uma quantidade enorme de resíduos, imagine então a soma dos 300 blocos cadastrados este ano em BH?

No ano passado, só o carnaval do Rio de Janeiro (Capital) gerou mais de mil toneladas de resíduos sólidos nos primeiros 4 dias de festança (dados extraídos da Comlurb – Companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro). Em Salvador, este número ultrapassou as 2 mil toneladas. Se buscarmos dados de todos os cantos do Brasil, chegaremos a números astronômicos.

O folião mais estressado e “ressaqueado” poderá achar que sou daqueles que adora “meter o pau” no carnaval, expondo os seus problemas e fazendo campanha para que ele acabe. Não é esta a minha intenção, mesmo porque, também sou chegado a uma folia. Eu não quero que o Carnaval se acabe, só quero que haja mudança de postura no comportamento da população.

Pra começar, cada folião pode tratar de cuidar do seu próprio lixo, levando um saco plástico ou uma mochila para recolhê-lo. Parece que dá trabalho, mas é o mesmo esforço gasto que temos ao levar a nossa Catuaba e a “Geropinga” pra folia. A mesma mochila em que levamos o “combustível”, também serve para levar as garrafas vazias de volta e mais outras embalagens de coisas que consumimos no local.

Os comerciantes, organizadores e patrocinadores desses eventos também devem fazer cada um a sua parte, mesmo porque estão faturando alto com a festa.  A limpeza destes locais gera um custo alto, e, se houve a liberação por parte da Prefeitura para sua realização, nada mais justo que os organizadores arquem com este valor. Melhor eles do que o contribuinte, que às vezes nem saiu de casa, mas vai receber uma conta de água mais cara do mesmo jeito por causa da bagunça dos outros.

Por fim, vale a pena salientar que o lixo aqui no Brasil tem que começar a ser enxergado como matéria prima. Não é só o alumínio que pode gerar renda. Por isso o Estado tem que fazer o papel de incentivador de um mercado pouco explorado por aqui, que é a Indústria da Reciclagem.

Eu vejo na televisão uma propaganda que eu adoro:

“- Feijão tem caldinho, feijão é carioca, é jalo, é preto. Feijão é agro.”

“- Banana tá na mesa, banana é prata, é ouro, é caturra. Banana é agro.”

 Por que então não fazem campanhas parecidas para o “lixo” gerado pelo cidadão?

Ficaria assim a propaganda:

“- Matéria orgânica é adubo, papel usado se transforma em outro novinho em folha, vidro é artesanato, plástico é pet, é bolsa... Lixo é dinheiro!”

A partir do momento que o cidadão brasileiro mudar a percepção que ele tem sobre o lixo, eu garanto que os nossos carnavais gerarão menos sujeira. Porque só na base do apelo à educação da população está difícil.

O carnaval passou, agora temos uma crise pra resolver no Brasil. Parece que a CEDAE vai mesmo ser privatizada lá no Rio de Janeiro. Quero só ver o preço que o Carioca vai pagar pela água excedente a ser gasta no próximo carnaval de 2018.

Sai de cena o Rei Momo e entra os Bobos da Corte.

Um abraço!

 

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