Reduzir as perdas para ampliar a oferta de água

Reduzir as perdas para ampliar a oferta de água

Talvez um dos mais difíceis desafios que os gestores das empresas de saneamento enfrentam é a gestão das perdas de água nos sistemas de abastecimento.

Tanto as perdas comerciais ou aparentes, ou seja, aquelas decorrentes de falhas na micromedição dos hidrômetros ou por furtos de água, quanto as perdas reais decorrentes de vazamentos de redes e extravazamentos das unidades, exigem foco, continuidade, estrutura e investimentos. Pensar que essas perdas ocorrem em um cenário adverso de crise hídrica e racionamento da distribuição de água em grandes centros urbanos brasileiros nos faz aumentar a preocupação e atenção com esse indicador.

No Brasil, as perdas de água não faturada nas maiores cidades alcança a média de incríveis 40%. Isso quer dizer que em cada 100 litros de água tratada injetada nos sistemas de abastecimento cerca de 40 litros não são faturados, ou seja, se perdem por falhas de medição, furtos, vazamentos e falhas operacionais.

Em Israel, a empresa que opera os serviços públicos de abastecimento de água em Tel Aviv apresenta índice de perdas de 9%. A EPAL em Portugal alcança um resultado de 8,5% de água não faturada perdida em seus sistemas operados. São números extraordinários para o setor, ainda que entendamos que perder cerca de 10% de sua produção é um prejuízo enorme. Ao compararmos com os 40% do Brasil, percebemos a oportunidade que as empresas de saneamento brasileiras têm nas mãos.

Se considerarmos o cenário atual do país, com racionamento histórico em São Paulo e, atualmente, as restrições ao consumo de água em várias grandes cidades, como Brasília, não podemos ignorar que a redução das perdas poderia evitar muitos problemas e dificuldades que enfrentamos hoje.

No Brasil, considera-se índice aceitável para perdas na distribuição um percentual de 20%. Mas o que fazer para enfrentar o desafio de reduzir as perdas para resultados próximos a esses entendidos como aceitáveis, ainda que ainda altos?

Para as perdas comerciais, é importante manter o parque de hidrômetros atualizados, dimensionados adequadamente, bem como implementar práticas comerciais que identifiquem e corrijam rapidamente os imóveis onde há furtos de água. Nos grandes centros urbanos, é preciso uma ação integrada com os poderes constituídos (executivo, legislativo e judiciário) para regularização de áreas ocupadas indiscriminadamente (favelas, aglomerados, invasões) onde ocorrem furtos de água sem condições de atuação das concessionárias.

Para as perdas reais, são imprescindíveis investimentos em automação (telemedição, telecomando e telesupervisão), substituição das redes, controle das perdas e atuação rápida na execução de serviços de correção de vazamentos de água.

Um limitador alegado pelas concessionárias é a necessidade de grandes investimentos na substituição e modernização das redes de distribuição, automação dos sistemas, aquisição de hidrômetros mais eficientes, entre outros. Como sabemos, o país possui um déficit em saneamento e as empresas precisam escolher entre investir no combate às perdas ou ampliar a oferta dos serviços para novas regiões.

Essa é uma questão que precisa ser observada sob outro aspecto, os investimentos contínuos nas perdas de água permite ampliar a receita dos sistemas, uma vez que grande parte dessa água é perdida em furtos e falhas da micromedição. Com esse incremento nas receitas, será possível investir de maneira sustentável na ampliação da oferta dos serviços.

A redução das perdas também significa redução de custos, principalmente energia elétrica e produtos químicos, despesas essas significativas para as empresas de saneamento. Há estudos que indicam que os investimentos em redução de perdas são sustentáveis e se pagam em alguns anos com a redução dos custos que proporcionam.

Além disso, não investir nas perdas agora, com a crise hídrica que o país atravessa e o comprometimento dos volumes dos principais mananciais, poderá significar a necessidade de realizar investimentos muito maiores em novas captações, adutoras, barragens para suprir a demanda e evitar o colapso dos sistemas operados.

Além de investimentos contínuos e suficientes, é preciso foco de toda a organização no controle e combate às perdas. As equipes operacionais e comerciais devem, diuturnamente, preocuparem-se com a redução das perdas e todas as ações devem ser planejadas e pactuadas, mobilizando e motivando a todos.

Investimentos, foco, constância de propósito e mobilização são os segredos para que as concessionárias alcancem índices aceitáveis de perdas nas grandes cidades.

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